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17 de setembro de 2012

Entendendo a Avaliação na Educação Infantil


 
 
Excelente texto para aperfeiçoamento da atividade!!!


A avaliação é importante em qualquer etapa educativa, pois se trata de um componente particularmente sensível de qualquer proposta curricular e exige uma competência especial dos profissionais da educação.

Avaliar constitui-se em uma tarefa didática necessária e permanente do trabalho docente, que deve estar diretamente ligada ao processo de ensino e aprendizagem.

A avaliação é uma apreciação qualitativa sobre dados relevantes do processo de ensino e aprendizagem que auxilia o professor a tomar decisões sobre o seu trabalho.

No espaço da educação infantil, alguns pesquisadores como Jussara Hoffmann, Vital Didonet, Sônia Kramer e Miguel Zabalza apontam em pesquisas e estudos que a avaliação na prática deste segmento é influenciada por modelos ou tendências de ensino que se misturam, configurando uma ação que carrega traços do ensino fundamental, onde prevalecem velhos esteriótipos e preconceitos. Hoffmann (2006) indica que há um paradigma de avaliação pautado na classificação dos alunos, que se guia pelo modelo do transmitir-verificar-registrar", sem considerar as especificidades do desenvolvimento infantil.

Kramer (2003, p. 95) afirma que “[...] é necessário que a clássica forma de avaliar, buscando os erros e os culpados, seja substituída por uma dinâmica de avaliação capaz de trazer elementos de crítica e de transformação ativa para o nosso trabalho”.

Consta no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, p. 59) que: “Existem ainda no Brasil práticas na educação infantil que possuem um entendimento equivocado da avaliação nessa etapa da educação, o que vem gerando sérios problemas, com consequências preocupantes [...]”.

Compartilhando com as contribuições supracitadas Barbosa (2004, p. 17) retrata o modelo clássico de avaliação como: [...] cultura classificatória e dualista, que separa os bons dos maus, afirma o que é certo e o que é errado, julga o outro a partir de valores e juízos pessoais e sociais, sendo alguns deles fortemente embebidos em preconceitos. Assim, a avaliação tem servido como um instrumento de controle social, pois produz seletividade e exclusão (BARBOSA, 2004, p. 17).

É comum se relacionar “avaliação com exame, com mensuração por meio de provas, com qualificações, com angústias, êxitos e fracassos”. Portanto, falta a cultura da avaliação na educação infantil, entendida como um processo que obriga os educadores a rever suas idéias e práticas, ao mesmo tempo em que aponta para a necessidade da tomada de consciência dos pontos fortes e fracos da atuação docente. (ZABALZA, 2006, p. 6).

No entanto, a cultura da avaliação a que se refere Zabalza (2006), impõe a necessidade de documentação e registros no cotidiano das escolas infantis, especialmente por parte dos docentes. Porém tais registros devem vir acompanhados de reflexão, como um meio que possibilite ao educador estabelecer maior sintonia entre o trabalho pedagógico e a avaliação e perceber a avaliação como mediação, como um elo significativo entre as ações cotidianas e principalmente que leve o educador a refletir sobre as ações e os pensamentos das crianças (HOFFMANN, 2006).

Assim: O processo avaliativo como base referencial ao fazer pedagógico dá-se pela abertura do professor ao entendimento das crianças com quem trabalha, pelo aprofundamento teórico que fundamenta a curiosidade sobre elas, pela postura mediadora (provocativa e desafiadora) (HOFFMANN, 2006, p. 28).

Seguindo essa linha de raciocínio acerca do processo avaliativo, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, promulgada em 20 de dezembro de 1996, consta que a avaliação, no âmbito da educação infantil deve acontecer mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento, sem o objetivo de promoção. O artigo 29, da referida lei, aponta que a educação infantil, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, de modo a complementar a ação da família e da comunidade.

No Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) a avaliação é definida como um conjunto de ações que auxiliam o professor a refletir sobre as condições de aprendizagem oferecidas e ajustar sua prática às necessidades colocadas pelas crianças, com funções de acompanhar, orientar, regular e redirecionar o processo educativo.

Conforme as orientações da LDB no. 9394/96, Kramer (2003) explica que a avaliação de destina a obter informações e subsídios capazes de favorecer o desenvolvimento das crianças e a ampliação de seus conhecimentos. Constitui-se como um elemento de dimensões política, social e pedagógica, integrado ao fazer educativo.

Essa forma de avaliar, que considera o papel da educação em sua globalidade, foi apresentada por Paulo Freire em várias obras e, possivelmente, foi referência para diversos autores que abordam essa temática de pesquisa. Freire (1996) coloca a necessidade de se assumir o ato avaliativo como avaliação democrática, a serviço da emancipação e da libertação dos sujeitos. Para tanto, é imprescindível a reflexão crítica sobre a prática, ou seja, o educador só pode assumir uma postura dialógica se entender e adotar uma postura de rever, refletir e entender a sua ação para reorientá-la com o propósito de modificá-la visando o crescimento de seus alunos. Dessa forma ele afirma que o ato de ensinar exige reflexão crítica sobre a prática.

Rossato (2008, p. 331) destaca que para Paulo Freire esse movimento de reflexão crítica era denominado de práxis, sendo: “[...] a estreita relação que se estabelece entre um modo de interpretar a realidade e a vida e a conseqüente prática que decorre desta compreensão levando a uma ação transformadora”.

Nos termos de Freire (1987):

O que nos parece indiscutível é que, se pretendemos a libertação dos homens não podemos começar por aliená-los ou mantê-los alienados. A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo (FREIRE, 1987, p. 67).

Diante dessas contribuições de Paulo Freire, muitos pesquisadores se voltaram para a avaliação mediadora. Especificamente na educação infantil, Hoffman (1996) propõe uma forma de avaliar pautada na perspectiva dialógica e mediadora, na qual a ação avaliativa seja reflexiva e desafiadora do educador.

 Barbosa (2004) expõe que é possível romper ao menos parcialmente com a visão clássica de avaliação, desde que haja ampliação da compreensão acerca das concepções do processo pedagógico, bem como do acompanhamento da aprendizagem e da ética e da responsabilidade social que deve permear o ato avaliativo.

Kramer (2003) aponta que todos os elementos do trabalho coletivo devem ser tomados como sujeito e objeto da avaliação, na perspectiva de avaliação participativa, sendo para isso, fundamental incluir organização, planejamento e reflexão crítica. Além destes elementos propostos por Kramer, Barbosa (2004) acrescenta que são necessários: sensibilidade e vontade política dos educadores, além de se repensar os objetivos da avaliação na educação infantil, os instrumentos e as estratégias e criar novos modos de analisar os processos.

A autora supracitada assinala ainda a urgência de se adotar a prática de reflexão sobre as constatações, inclusive auto-avaliação e utilizar diferentes instrumentos para construir múltiplos olhares sobre o desenvolvimento das crianças. Portanto, esse exercício envolve o pensar coletivo com trocas de experiências entre educadores.

No Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) a avaliação é entendida como um instrumento que deve servir para reorientar a prática educativa e, para isso, deve ser sistemática e contínua, tendo como objetivo principal a melhoria da ação educativa. Além do trabalho do professor, consta ainda no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) que a avaliação é um excelente instrumento para que a escola possa estabelecer suas prioridades em relação ao trabalho educativo, para reorientar a prática e definir o que avaliar, como e quando de acordo com os princípios educativos.

Nesse contexto de avaliação dialógica, participativa e reflexiva na educação infantil, Didonet (2006) chama a atenção para a adoção de procedimentos avaliativos com crianças pequenas, destacando que em hipótese alguma pode ser desconsiderado o objetivo da educação infantil, que é a formação humana, para a vida e para descobrir o mundo do conhecimento pela fantasia e pelo aspecto lúdico. E enfatiza: Escolher ou aceitar um tipo de avaliação sem antes discutir o que se pretende conseguir com as crianças é uma decisão arriscada“ (DIDONET, 2006, p. 46).

Portanto, há um consenso entre os pesquisadores/educadores supracitados de que deve haver coerência entre a avaliação e as finalidades da educação infantil, priorizando o desenvolvimento das crianças. Diante disso, a avaliação não pode ser discutida sem vínculo com os objetivos da educação infantil e sem considerar as pesquisas referentes ao desenvolvimento infantil.

Deste modo, antes de caracterizar e discutir os instrumentos de avaliação apontados pelos pesquisadores e profissionais, como sendo os mais adequados conforme os objetivos da educação infantil (próximo tópico) cabe-nos fundamentar os motivos que subsidiaram e ainda subsidiam as propostas de avaliação dialógica e reflexiva.

Primeiramente as contribuições advindas do campo de pesquisas em desenvolvimento infantil, especialmente as contribuições de Jean Piaget sobre a forma como ocorre o aprendizado e o desenvolvimento. Piaget pela perspectiva cognitiva apontou que a atividade mental da criança é qualitativamente diferente do pensamento adulto em vários aspectos e estabeleceu uma distinção fundamental entre três tipos de conhecimentos: físico, lógico-matemático e social convencional. Em síntese, Piaget verificou que a fonte do conhecimento físico, assim como o conhecimento social é parcialmente externa, enquanto que a fonte do conhecimento lógico-matemático é interna ao indivíduo.

Assim como a teoria cognitiva, outras teorias foram importantes para o entendimento do desenvolvimento humano, como: Teoria Sociocultural de Vygotsky (perspectiva contextual); Teoria tradicional da aprendizagem (Behaviorismo ou comportamentalista); Teoria psicossexual de Freud, Teoria psicossocial de Erikson, dentre outras.

Destas constatações/estudos, desenvolveram-se na área de formação de professores, linhas de pesquisa que passaram a indicar a necessidade de se conhecer os caminhos percorridos pelas crianças, em termos de atividade mental e construção do conhecimento, para se planejar conteúdos, metodologias e, inclusive, organizar o processo de avaliação. Papalia e Olds (2000, p. 50) destacam que “[...] compreender como as crianças pensam torna mais fácil para os pais ensiná-las e ajuda os professores a saber como e quando introduzir tópicos no currículo.”

 Em segundo lugar, além das tendências de ensino e pesquisas relativas ao desenvolvimento humano, que influenciam nos modos de avaliação, os aspectos políticos e a construção de significados também afetam diretamente no processo de avaliação, que não é neutro, assim como a educação não é. Moss (2006) explica que a avaliação tem diversas linguagens, com seus próprios valores, suposições e ferramentas, porque é influenciada por épocas e ocasiões diferentes.

O processo não é apenas intrinsecamente dialógico, mas também explicitamente político – em contraste com a afirmativa de ser técnica e ser situada fora do âmbito político. A linguagem da construção de significado reconhece diferentes visões e perspectivas, assim como a importância da argumentação na busca de acordos provisórios. Todas as etapas da construção de significado são feitas no contexto de um processo contínuo de debate democrático sobre diversas questões criticas, tais como: O que queremos para nossas crianças? Que entendimento temos de nossa instituição de assistência infantil e sua relação com a sociedade? O que queremos dizer com “assistência” e “educação”? A construção de significado utiliza a documentação pedagógica como um instrumento que permite a seus partidários construir significado e fazer juízos de valor em conjunto. [...] a documentação pedagógica é, resumidamente, um processo para tornar a pratica visível e, por conseguinte, esta sujeita a dialogo, analise critica e interpretação. Ela envolve produzir material (notas escritas, fotografias, vídeos, trabalho das crianças, etc.) que documentam as práticas e os relacionamentos de crianças e educadores e um processo de discussão, reflexão e interpretação desse material de forma rigorosa, dialógica e democrática (MOSS, 2006, p. 11).

A partir dessa contribuição, Moss (2006) alerta para a importância de se reconhecer o processo avaliativo a partir da diversidade política, social e cultural, que confere inevitavelmente, práticas alicerçadas em valores e perspectivas variadas. O autor supracitado chama a atenção para as escolhas no âmbito da avaliação infantil, que devem superar o aspecto técnico, considerando a existência dos aspectos político e ético, para uma avaliação dialógica e política.

Para sustentar as ideias supracitadas, destacamos o conceito de avaliação formativa, defendido por Parente (2004): O conceito de avaliação formativa reenvia para a ideia de conjunto de práticas diversificadas, integradas no processo de ensino-aprendizagem, e que procuram contribuir para que os alunos se apropriem melhor das aprendizagens curriculares através de uma atitude de valorização da participação do aluno em todas as fases do processo educativo. Com este objectivo, os professores tentam construir muitas oportunidades, ao longo do ano, para alunos e professores apreciarem o trabalho realizado e utilizarem a informação que vai sendo obtida para introduzir mudanças no processo de ensino e aprendizagem. (PARENTE, 2004, p. 25).

Corroborando com a idéia acima Perrenoud (1999) aponta para a importância de situações didáticas variadas, com o objetivo de promover as aprendizagens dos alunos. Ainda, Perrenoud (2002, p. 25) afirma que “as competências não podem ser construídas sem avaliação”, que deve ser formativa e, dentre outras características, deve contribuir para que os estudantes desenvolvam mais suas competências, exigir colaboração entre os pares e incluir a auto-avaliação.

Além do conceito de avaliação formativa com caráter reflexivo, dialógico e crítico, amplamente defendido entre os pesquisadores ora citados, Parente (2004) indica a avaliação alternativa ou autêntica, que significa “qualquer processo de avaliação que divirja significativamente das tradicionais formas de avaliação” (Tellez, 1996 apud PARENTE, 2004, p. 45). Esse formato de avaliação prioriza as necessidades da criança, enquanto “aprendente”, exalta o desenvolvimento e a aprendizagem, com foco nas capacidades e competências da criança. Baseia-se em acontecimentos da vida real e nas realizações da criança, focaliza nas aprendizagens significativas, é realizada em todos os contextos de vida da criança, sendo colaborativa entre educadores, crianças, pais e outros profissionais (PUCKETT E BLACK apud PARENTE, 2004).

Dessa forma, numa tentativa de contribuir para o esclarecimento do conceito de avaliação no domínio da educação infantil, buscamos revelar que, ao se negligenciar ou não avaliar a criança, de forma reflexiva, compreensiva e sistemática restringe-se o potencial de desenvolvimento infantil. Tentamos localizar a questão da avaliação na educação da infância partindo de contribuições de pesquisadores e de documentos do Ministério da Educação, que indicam a coexistência de uma cultura de avaliação tradicional e práticas de avaliação formativa, inclusive com a defesa dessa última. Por fim, citamos a existência da avaliação alternativa ou autêntica, utilizada em oposição ao modelo tradicional. A valorização da prática de avaliação na educação infantil se coloca em função das transformações ocorridas ao nível das concepções/teorias de desenvolvimento humano e infantil e das concepções e das práticas educacionais (didáticas, pedagógicas, avaliativas etc) que emergiram nos últimos anos.

No próximo tópico trataremos da documentação pedagógica na avaliação no âmbito da educação infantil, considerando que a avaliação é influenciada por aspectos políticos, sociais e culturais; que é atravessada por pesquisas em outras áreas de conhecimento, como as do desenvolvimento humano e que as tendências de ensino se fazem presentes nas escolhas dos instrumentos e na forma de interpretar os dados por parte dos educadores.

FONTE: Parte integrante de monografia
 
ESCOLA SUPERIOR ABERTA DO BRASIL - ESAB
CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM EDUCAÇÃO INFANTIL
MARIA DA PENHA APARECIDA KLUG BASILIO CARNEIRO
PROCESSO AVALIATIVO NA EDUCAÇÃO INFANTIL
VILA VELHA - ES 2010

1 comentários:

Sonia Ferreira disse...

Parabéns!!! Adorei o blog, útil demais, viu? Organização nota 10, temas super interessantes. Muito legal. Parabéns pelo trabalho.
IP: 200.216.75.12

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