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22 de agosto de 2011

A viagem rumo ao descobrimento do Brasil

 


Embora tenha sido uma jornada militar, um empreendimento comercial e uma missão diplomática, a viagem de Pedro Alvares Cabral - em meio a qual o Brasil foi descoberto - foi também, e acima de tudo, uma aventura extraordinária. Privilegiar os aspectos aventurescos da expedição de Cabral se justifica plenamente, não apenas porque sua viagem de fato foi repleta de ação e de terríveis naufrágios, combates marítimos e terrestres, encontro com povos e terras desconhecidas e inúmeros outros episódios dramáticos, mas principalmente porque, desta forma, é muito mais fácil e mais agradável compreender seus múltiplos significados.
A lição da História
 
Ao percebermos com clareza que a viagem de Cabral foi realizada por homens de carne e osso - com desejos e temores, com anseios e expectativas, premidos pela fome e pela sede, lutando por glória e por dinheiro -, nossa capacidade de nos identificarmos com aqueles marinheiros, soldados e capitães aumenta enormemente. Tal identificação permite que nos coloquemos de imediato no lugar dos grumetes e dos degredados, dos comandantes de origem nobre e dos pilotos de vasto saber, enfrentando os perigos do Mar Tenebroso, penetrando nos escuros e insalubres porões de suas diminutas caravelas, desembarcando nas praias paradisíacas do sul da Bahia - e seguindo viagem com eles rumo à longínqua Índia.
Dessa maneira, como num passe de mágica, a História deixa de ser uma seqüência enfadonha de nomes e datas para se transformar naquilo que ela de fato é: um processo orgânico e múltiplo, repleto de ação e aventura; com sangue, sexo, ganância, coragem e hombridade. A História começa a se explicar por si própria e se desvenda como um fluxo de acontecimentos interligados, revelando de onde viemos e nos permitindo antever para onde vamos.
Aqueles que não conhecem a própria História estão condenados a repeti-la. Os que sabem como e porque estão aqui, se encontram preparados para interferir e transformar o próprio curso da História.

A História não pode ser aprisionada nos bancos da escola. A História está viva: pulsa, lateja e vibra no raiar de cada novo dia. Acompanhar passo a passo a viagem de Cabral - episódio inaugural da História oficial do Brasil - é uma viagem virtual da qual cada passageiro emerge com uma nova visão do mundo, munido das ferramentas que o transformam de mero espectador em agente efetivo, em sujeito histórico cujas ações podem ter reflexos reais na construção da nação.
Redescobrir o Brasil
Na escola, a viagem de Cabral e o descobrimento do Brasil se resumem a um episódio histórico aparentemente grandiloqüente -, mas tedioso. Por algum motivo, jamais ficamos sabendo que boa parte dos 1500 tripulantes da frota que zarpou de Lisboa no dia 9 de março de 1500 tinha, em média, 15 ou 16 anos de idade, e que muitos deles não apenas jamais haviam navegado como foram recrutados a força em pequenas cidades do interior de Portugal. Ninguém nos conta o que comiam e bebiam esses homens ao longo dos quase seis meses em que permaneciam em alto-mar. Quanto ganhavam eles? O que pensavam? O que esperavam? Quantos sobreviveram? De que forma morreram aqueles que jamais retornaram para a sua pátria? O que sentiram ao verem uma terra repleta de flores e frutos desconhecidos, habitada por um povo desnudo que, aparentemente, se limitava a dançar pelas praias de areias claras e águas tépidas? Por que dois grumetes desertaram da expedição e se deixaram ficar entre os nativos? Quem eram e por que choravam os dois degredados abandonados no Brasil?
Para além desses aspectos mais lúdicos e mais particulares, temos sido privados também de dados econômicos fundamentais. Quanto custou a viagem de Cabral? Quem a financiou e com qual objetivo? Qual o preço de uma nau e de uma caravela em 1500? De que forma, onde e por quem tais embarcações foram construídas? Quanto Pedro Alvares Cabral recebeu para chefiar aquela missão e porque foi ele o escolhido? Por que sua viagem mudou o curso da história econômica da Europa?
Essas respostas são todas conhecidas e, uma vez de posse delas, nos vemos preparados para entender muito mais plenamente - e com muito mais prazer e lucidez - o que de fato significou a descoberta do Brasil e qual o alcance da jornada comandada por Cabral. Ao descobrirmos as motivações que levaram o rei D. Manoel a enviar uma monumental frota de 13 embarcações da Europa até a Índia, estamos prontos para redescobrir o Brasil. E redescobrir o Brasil cinco séculos após o desembarque de Cabral é uma autêntica viagem de auto-conhecimento.
Ouro e pimenta


Para entender mais amplamente o significado da expedição de Cabral, é preciso empreender uma jornada no tempo, retrocedendo pelo menos até 1453. No dia 29 de maio de 1453, os turcos otomanos - comandados pelo califa Maomé II - tomaram a cidade de Constantinopla (hoje Istambul), na Turquia. Foi um acontecimento tão importante que não apenas marcou o fim do Império Romano como tem sido considerado o início da Era Moderna. Com a tomada de Constantinopla, os turcos bloquearam as milenares rotas de comércio entre a Europa e o Oriente.
Do Oriente, os europeus importavam sedas, pedras preciosas e, acima de tudo, especiarias - especialmente pimenta.
A pimenta havia se tornado um artigo tão fundamental na dieta e nos hábitos europeus que valia quase tanto quanto o ouro. Por que? Porque cada vez que o inverno se aproximava - o que, no hemisfério norte se dá ao redor do mês de novembro - os camponeses e os grandes senhores de terra eram forçados a abater seus rebanhos bovinos, ovinos e caprinos. As geadas e, a seguir, a neve, acabavam com as pastagens. Os animais eram sacrificados antes que a falta de comida os tornasse magros demais. Para conservar a carne, sal e pimenta eram usados em grandes quantidades. Ainda assim, na hora de ser consumida, a carne tinha um gosto tão ruim que nobres, reis, cardeais e burgueses bem-sucedidos a condimentavam com muitos temperos - especialmente pimenta.
Dessa forma, a pimenta, muito mais do que uma mera especiaria, tornou-se uma espécie de moeda franca, corrente em toda a Europa: algo similar ao que o dólar é hoje. Quem tinha pimenta era rico. Quem não a tinha, não era ninguém. Logo após a conquista de Constantinopla, praticamente toda a pimenta vinda do Oriente chegava à Europa através de Veneza, na Itália. Isso porque os venezianos fizeram um acordo com os turcos, obtendo deles o monopólio para a distribuição das especiarias.
Portugal era uma das nações mais distantes da Itália. Assim sendo, a pimenta e as demais especiarias chegavam a Lisboa com preços exorbitantes. Ao mesmo tempo, Portugal era um dos únicos países europeus com saída para o oceano Atlântico. Sob inspiração do rei D. João II, os portugueses se dispuseram a singrar as misteriosas e temíveis águas do Atlântico - então chamado de Mar Tenebroso - para contornar o continente africano e chegar à Índia por via marítima. Uma vez na Índia, eles poderiam obter pimenta por preços muito mais baixos.
Sua extraordinária aventura exploratória passou a ser incentivada - e parcialmente financiada - por banqueiros florentinos e genoveses. Nada mais lógico: as cidadesestado de Gênova e Florença, eternas rivais de Veneza, tinham sido as mais prejudicadas pelo acordo entre os venezianos e os turcos otomanos. Depois de 85 anos de incessante luta contra as correntes e os perigos do Atlântico, os navegadores lusos enfim chegaram à Índia. O autor da façanha foi o temerário e cruel Vasco da Gama. No dia 27 de maio de 1497, ele aportou com suas  três caravelas no porto de Calicute, na costa do Malabar, no sul da Índia. Aquele não foi apenas um extraordinário feito náutico: foi também um marco que estabeleceu o início do período que certos estudiosos chamam de "a era da dominação européia na História" - cujos reflexos permanecem vivos ainda hoje.
Estava descoberto o Brasil

A viagem de Pedro Alvares Cabral só pode ser entendida em sua totalidade como uma decorrência da jornada de Vasco da Gama. Ao retornar a Portugal em julho de 1499, com a fantástica notícia de que a Índia podia ser alcançada por mar, Gama estava deflagrando o primeiro grande processo globalizante da humanidade - e transformando todo o planeta em uma imensa rede comercial que envolvia quase todos os continentes e inúmeros povos, de muitas crenças e muitas línguas.
Cabral - um sisudo chefe militar, com 1,90 m de altura (numa época em que a estatura média dos portugueses mal ultrapassava 1,65 m) - foi escolhido para chefiar a segunda expedição para a Índia, cuja missão era estabelecer uma feitoria (ou entreposto comercial) em Calicute. Ainda assim, é provável que ele jamais houvesse navegado. O que levou então o rei D. Manoel (sucessor de D. João II) a alçá-lo a um cargo tão importante? Provavelmente o fato de Cabral ser casado com uma das mulheres mais ricas de Portugal, D. Isabel de Castro.
Com dez naus e três caravelas, a frota comandada por Cabral era a maior e a mais portentosa que Portugal jamais enviara para singrar o Atlântico. Quase todas as expedições anteriores eram constituídas por apenas três caravelas e cerca de 150 tripulantes. Entre marujos, soldados, grumetes, degredados, pilotos, astrônomos, escrivães e capitães de sangue nobre, Cabral conduzia 1500 homens.
Seus navios estavam abarrotados de tesouros, cuja luminescência e valor deveria seduzir os rajás indianos. Se o poder do dinheiro falhasse, Cabral também levava canhões, pólvora e espadas afiadas.
Seguindo as instruções de Vasco da Gama, a esquadra zarpou de Lisboa em meio a festas e orações. Tudo transcorreu bem - embora um dos navios tenha sido "comido pelo mar", de acordo com a terrível e poética frase de então. E assim, no entardecer de 22 de abril de 1500, após de 44 dias em alto-mar, quando se encontrava muito mais a Oeste do que o necessário para contornar a África e chegar à Índia, a expedição deparou com um "monte, mui alto e redondo", vestido por uma mata luxuriante e silhuetado contra o fulgor do crepúsculo. Estava descoberto o Brasil.

Embora, naquela instante, o "achamento" da nova terra tenha sido considerado pouco mais do que um feliz acidente de percurso, o passar dos anos acabaria revelando que o descobrimento do Brasil era o cerne e o coroamento da aventura portuguesa pelos mares do mundo.
Quinhentos anos depois do luminoso desembarque em Porto Seguro, a extraordinária aventura de Cabral continua repleta de significados e envolta em mistérios insondáveis. Foi uma descoberta casual ou acidental? Cabral estava seguindo uma rota já percorrida por outros portugueses ou foi o primeiro a chegar ao Brasil? Os portugueses de fato desprezaram a nova terra ou apenas aguardaram o momento oportuno para colonizá-la?
Buscar essas respostas e acompanhar a jornada dos homens que as forjaram continua sendo uma viagem apaixonante - não apenas no tempo e no espaço, mas em direção à alma de uma nação e para dentro de nós mesmos. Quem aceita embarcar nessa aventura sai dela apaixonado e engrandecido. Um novo homem em um Novo Mundo.”
FONTE: Cemepe.

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